A surpreendente La Paz por Rafaela Hernandes

A primeira coisa que você precisa ter pra ir a La Paz é: mente aberta. A primeira impressão da cidade não é das melhores e você pode chegar a pensar “o que diabos eu tô fazendo aqui”. Mas calma, tem muita coisa legal pra fazer em La Paz e nos arredores e com certeza vale muito a pena conhecer. Fiquei apenas 4 dias na cidade e acho que foi bom, embora pudesse ficar mais um ou dois. No geral, La Paz é uma cidade bem barata tanto para hospedagem quanto para alimentação. O que acaba sendo mais caro são os passeios.

Por uma questão de logística, eu já havia reservado um hostel próximo da rodoviária de La Paz para poder ir a pé mesmo com mala. Fiquei no Pirwa Hostel e gostei. Cama confortável, chuveiro quente, tem um barzinho e um mirante para cidade muito legal. Único defeito é que não tem cozinha e o atendimento, como vocês verão a seguir, não foi dos melhores.

Cheguei lá por volta das 7h e o check-in teoricamente seria as 11h, ou seja, teria que esperar. Depois de usar a internet pra dar sinal de vida e descansar um pouco, resolvi sair pela cidade pra já garantir os passeios dos próximos dias. Visto que era dia 31 de dezembro, muitas agências estavam fechadas mas entrei em pelo menos umas 4 até decidir onde comprar. Todas ficavam na Av. Illampu. Nessa caminhada, passei por um dos “mercados” de La Paz, que como já dito no post anterior, são como que feiras livres. Daí tem carne exposta, os grãos ficam em grandes sacos que o pessoal pega com a mão, é uma verdadeira bagunça. Comprei algumas coisas industrializadas para comer e tomei meu caminho de volta ao hostel. Ah, se você ainda não tiver se acostumado com a altitude depois de toda essa saga, recomendo não dar uma de louco e sair andando por La Paz sem rumo porque você vai ficar sem fôlego em dois tempos.

Mercado em La Paz
Uma das principais avenidas em La Paz
Vista do mirante do Pirwa Hostel

Cheguei já era algo em torno do meio-dia e meu quarto ainda não estava pronto. Comecei a me estressar porque a recepcionista ficava me falando “só mais um pouco” mas não levantava a bunda da cadeira. Olha a minha situação: estava já no quarto dia sem tomar um banho decente, passei a noite inteira (mais especificamente 11 horas e 30 minutos) num ônibus numa estrada ruim, tinha acabado de passar quase 3 horas andando pela cidade há uma altitude de tipo 3500 metros, morrendo de saudade do namorado… Estava cansada até os ossos. Comecei a chorar loucamente. Foi ai que um staff do hostel apareceu do além, se compadeceu de mim, e me levou até o meu quarto, isso já era quase 13h.

Tinha escolhido um quarto de 4 camas (camas avulsas, não beliches) para ficar bem a vontade. Para a minha sorte, estava vazio. Arrumei minhas coisas e fui tomar um banho. Meu Deus, que delícia tomar banho de verdade, água quente e abundante, foi maravilhoso. Coloquei uma roupa bem confortável e quando eram mais ou menos umas 15h deitei na cama e dormi, apaguei completamente. Só acordei meia-noite com o barulho dos fogos de ano novo. Levantei para usar o banheiro e dar uma olhada pela janela e voltei dormir. Realmente, eu tava bem cansada.

Acordei cedo no dia seguinte para o primeiro passeio. Nesse tour iríamos até Chacaltaya, uma montanha com a estação de esqui mais alta do mundo (agora desativada por falta de neve) e para outro Valle de La Luna, só que em La Paz. Bom, Chacaltaya é maravilhoso, ainda tem um pouco de neve lá em cima e rende várias fotos legais. Foi o lugar mais alto que já estive na vida, 5300 metros de altitude. Eu demorei uns 40 minutos pra  subir algo como 300 metros. A falta de ar é muito real.

Estrada para Chacaltaya
Estrada para Chacaltaya
Chegando em Chacaltaya
A pequena subida que quase me matou
Do alto de Chacaltaya

Depois seguimos para o Valle de La Luna mas estava fechado por que era dia 1 de Janeiro. De qualquer forma, tiramos algumas fotos do lado de fora que já dava pra ter uma ideia de como seria lá dentro. Não fiquei muito nervosa por não terem nos avisado antes porque já tinha visto coisas maravilhosas no Atacama então… estava bom por hora. Voltei para o hostel mais ou menos na hora do almoço e resolvi conhecer outras partes de La Paz. Fui na Calle de Las Brujas, Plaza Murillo, a Igreja de San Francisco entre outros lugares que fui explorando aos poucos. É verdade que a primeira vista, La Paz não parece ser muito convidativa, você vê morros e mais morros cobertos de casas de tijolo sem reboco e tudo parece uma grande comunidade. As ruas são sujas e o cheiro de urina é forte em quase todos os lugares. Mas sinceramente? Eu gostei, de tudo. É uma cultura totalmente diferente da nossa e isso me encanta. Fora os lugares mais distantes da cidade que conheci, como Chacaltaya, tudo valeu a pena.

Valle de La Luna de La Paz visto do lado de fora
Calle de Las Brujas (quase tudo fechado por ser 1 de Janeiro)
Essas mulheres com chapéuzinhos, tranças e vestidos coloridos são chamadas cholas. Elas não gostam de fotos.
Plaza Murillo

Ainda nesse dia fui comer pizza com uma brasileira que conheci no hostel. O lugar, que era administrado por uma senhorinha, era bem pequeno mas parecia ser muito apreciado por mochileiros. Aliás, essa é a segunda coisa que você repara em La Paz: a cidade está na rota do “mochilão tradicional da América do Sul”, isto é, Peru, Bolívia e Chile. Então é muito comum ver gringos europeus passeando com suas botas de trekking e máquina fotográficas.

Voltando para o hostel, apareceu meu primeiro companheiro de quarto e era justamente o inglês do passeio do Uyuni! Nisso, descobrimos que tínhamos comprado o mesmo passeio com a mesma agência para o dia seguinte, passeio esse que foi o grande destaque de La Paz: descida de bike da Estrada da Morte, ou Camino a Los Yungas, o nome original. A estrada liga La Paz a uma cidade chamada Coroico.

Vieram nos buscar no hostel para tomar café da manhã numa lanchonete administrada pela mesma senhorinha da pizzaria da noite anterior. Comecei a entender o porque mochileiros gostavam tanto dela. Daí pegamos a estrada e começamos a nos dirigir para a tão famosa Estrada da Morte! Se você nunca ouviu falar, pesquise algum vídeo no Youtube só pra sentir o drama. O guia nos explicou que seria melhor guardar nossos pertences dentro da van porque iríamos nos molhar e, se caíssemos da bicicleta, corria o risco de quebrar alguma coisa. Além disso, teria uma pessoa fazendo vídeos e fotos do pessoal e a van nos seguiria durante todo o percurso. Cada um pegou uma bicicleta, luvas, capacete, protetores de cotovelo e joelho e lá fomos nós.

As bikes (eu fiquei com uma vermelha)
O grupo, em baixo de chuva, antes de iniciar a descida.

A estrada tem 60km de extensão, sendo 30km em asfalto e 30km em terra, que seria estrada da Morte propriamente dita. Como tudo é descida, não é um grande esforço andar todos esses quilômetros, você mal pedala, apenas aperta o freio. A primeira parte no asfalto foi emocionante, começou a chover, havia um pouco de neblina e as curvas são bem acentuadas. Paramos em alguns pontos para descanso. Em uma das paradas, fui usar o banheiro e, simplesmente, as cabines não tinham portas! Imaginei que seria melhor ir no ‘menos escondido’ pois estaria mais limpo. Nunca fiz uma escolha tão certa. Enfim, como sou lerda e medrosa demais pra soltar o freio, sempre era a última a chegar nos pontos de encontro.

Então, finalmente chegamos na parte de terra da estrada e fomos brindados pelo sol. A estrada tem mais ou menos uns 3 metros de largura sendo de um lado um precipício enorme e do outro um paredão de terra que, em alguns pontos, cachoeiras caiam no meio da estrada criando até pequenas lagoas. Fiquei me perguntando como era possível utilizarem aquela estrada com carros e ônibus. Aliás, em todo o percurso, haviam diversas cruzes e homenagens a pessoas que morreram por ali. Dizem também que se você ficar olhando para baixo, verá carros, ônibus e outros veículos caídos. Eu não me dei a esse trabalho, estava mais preocupada com a minha bicicleta. Tem alguns trechos que as pedras no meio da estrada são bem grandes e foi numa delas que a minha bicicleta não passou e eu fui ao chão. Todos aqueles protetores realmente são necessários.

Bem, fui a última a chegar no destino final, onde tinha um belo almoço nos esperando. Notei depois de algum tempo que minhas mãos estavam doendo MUITO de tanto ficar apertando o freio. A parte de dentro das coxas também ficaram bem doloridas mas com certeza isso aconteceu porque eu não andava de bicicleta há tempos e sou extremamente sedentária. Além disso, paguei pela bicicleta mais barata possível, sem amortecedores. Você pode pegar uma com amortecedor na frente e atrás se quiser pagar mais caro.

Estrada da Morte
Claramente eu não aguentei o peso da bike.
Foto em grupo em local seguro
A última a chegar pra sempre

Para voltar, cada um do grupo se dirigiu para suas respectivas vans e começamos a voltar para cidade. FOI AI que eu tive outra surpresa. Quando comprei o passeio, me informaram que a van voltava pela estrada nova (existe sim uma estrada substituta e asfaltada que faz o mesmo trajeto para Coroico). Mas o meu motorista começou a voltar pela estrada velha, ou seja, a própria Estrada da Morte. Esse foi um dos poucos momentos da minha vida que eu senti um medo transcendental. O cara, possivelmente por estar acostumado, estava indo mais rápido do que uma estrada daquelas permitia. A parte “boa” é que ele fez uma pausa no meio do caminho para fotos.

O medo que eu senti não valeu essa foto

Chegando de volta na agência, ganhamos um CD com as fotos e vídeos gravados (que não ficaram boas mas ok) e uma camiseta escrito qualquer coisa como “eu sobrevivi”. Falei com um dos caras da agência do porque meu motorista tinha voltado pela estrada antiga e recebi a seguinte resposta: “O motorista é que decide por onde vai voltar. Muitos preferem voltar pela estrada antiga porque não tem trânsito e quem está subindo tem prioridade de passagem. Além disso, a estrada nova tem o tráfego bem intenso e há muitos acidentes também”. Nesse momento me lembrei que, realmente, como não passa dois carros na estrada, em determinado momento havia um carro descendo que teve que começar a dar ré até encontrar um lugar para encostar e deixar a nossa van passar.

Terminada a aventura, arranjei um lugar pra comer e voltei para o hostel. Agora tinha também mais um casal no meu quarto, então todas as camas estavam ocupadas. O inglês lá do passeio do Uyuni me ofereceu a camiseta que ele ganhou da agência da descida da Estrada da Morte porque ele não podia levar mais coisas na mala dele (lembrando que ele tava na estrada há quase dois anos). Eu aceitei prontamente e dei pro meu namorado quando voltei pra casa. O inglês disse que ia seguir viagem pela Amazônia boliviana e eu achei fantástico.

No dia seguinte eu fiz o único passeio que talvez não tenha valido a pena pela forma que eu fiz. Eu queria conhecer o Lago Titicaca, Copacabana e a Ilha do Sol mas, como o tempo era curto, deveria ser ida e volta no mesmo dia. Não haviam muitas agências que faziam isso e acabei fechando com uma que cobrou bem caro… Mas ok, era o que eu precisava no momento. O ônibus passou no hostel bem cedinho e ele já tava cheio. Não eram pessoas que estavam fazendo turismo, eram bolivianos que estavam viajando mesmo.

De La Paz até Copacabana são quase 4 horas de viagem então tivemos uma parada no meio do caminho. Achei interessante que, olhando para as montanhas ao fundo, deu pra ver que tinha nevado durante a noite, os picos estavam todos branquinhos.

Para chegar em Copacabana é preciso atravessar o Estreito de Tiquina. Poderia ter uma ponte? Poderia, mas não tem. Para estimular a “economia” local, a travessia é feita de barco e balsa. Acontece assim: os passageiros descem do ônibus e entram em barquinhos que levam até o outro lado por um valor irrisório, algo como 1 boliviano (tipo, 50 centavos de real na época). O ônibus é levado por uma “balsa” bem pequena que eu realmente não sei como não afunda. Chegando do outro lado, todos sobem no ônibus e a viagem continua até Copacabana.

Balsa hiper segura no Estreito de Tiquina

Lá um guia levou eu e mais dois turistas para almoçar e depois pegamos outro barco até a Ilha do Sol. Fomos tirando fotos do Titicaca e, já na Ilha, conhecemos apenas as ruínas de um pequeno templo. Foi uma passagem muito rápida mas que foi o suficiente para conhecer o local. Logo pegamos outro barco de volta a Copacabana onde tive tempo de dar uma andada pela cidade e comprar algumas coisas. Na hora marcada meu ônibus estava pronto para partir, lotado. Nisso, começou a chover fortemente, então para atravessar o Estreito de Tiquina na volta foi bem tenso. Fiquei completamente molhada. Cheguei em La Paz era noite, não me lembro ao certo horário. Mas deu tempo de tomar um banho e sair para comer algo.

Lago Titicaca
Chegada na Ilha do Sol
Ruínas de templo inca na Ilha do Sol

Dia seguinte já era dia de partir. Resolvi passar num fast food pra comer algo como “almoço” antes de ir para o avião mas iria me arrepender disso mais pra frente. Fui pro aeroporto de táxi. Os táxis lá são baratos, combinei o valor antes com o motorista e acho que paguei algo em torno de 50 bolivianos. Achei razoável pela distância.

O aeroporto El Alto é bem pequeno mas o controle de imigração é bem forte. Tinha uma mesinha com dois funcionários, um deles abriu minha mala de mão e me fizeram várias perguntas, por onde andei, quantos dias estava viajando e se tinha remédios comigo. Não julgo porque o tráfico de drogas ali naquela região deve ser forte, acho que é necessário. Meu voo saiu de La Paz, fez uma escala numa cidade chamada Iquique, no norte do Chile, onde desci apenas para fazer a imigração e voltar para o avião. Nunca tinha visto isso acontecer mas ok.

Cheguei em Santiago e teria uma escala de algumas horas durante a noite no aeroporto. Foi ai que aquele fast food do almoço bateu e bateu ruim. Passei a noite inteira vomitando. Enfim, na manhã seguinte o avião saiu em direção a Guarulhos. Minha viagem chegava ao fim. Se faria tudo de novo? Certamente.

2 thoughts on “A surpreendente La Paz por Rafaela Hernandes”

  1. Adorei tudo o que contou. Quando digo que fui à Índia presto atenção às pessoas que entortam o nariz como cavalos cheirando maçã podre. Mas os sabores da Índia convidam o visitante a conhecer templos magníficos Que só os preconceituosos deixam de conhecer. Meus olhos passeiam pela cores e artesanatos e .volto muito mais enriquecido ao sair do que quando cheguei. Saudades de você. Um dia ainda faço uma ceia indiana para vocês. Beijos a todos.

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