O passeio de 3 dias ao Salar do Uyuni por Rafaela Hernandes

Prosseguindo com meu roteiro, comprei o meu passeio para o Salar do Uyuni na própria cidade de San Pedro, com uns 3 dias de antecedência na empresa Estrella del Sur e recomendo a todos. Como estava sozinha, não tive grandes problemas em encontrar lugar para mim. O valor foi em torno dos R$500,00.

Eu já tinha achado o Atacama maravilhoso mas nem imaginava que ao cruzar a fronteira para a Bolívia veria as coisas mais lindas que já vi na vida.

Esse passeio tem 3 dias e 2 noites de duração, com tudo incluso, isto é: guia, hospedagem e refeições. Ele é feito em um veículo 4×4 com 6 pessoas mais um motorista (que será seu guia e seu cozinheiro também). Sobre as acomodações, contarei no decorrer do relato. Se bem me lembro, a única coisa paga a parte foi a entre na Reserva Nacional onde fica a maioria das lagunas visitadas. Ah! Depois de cruzar a fronteira, só é aceito pesos bolivianos! Eu fiz o câmbio em San Pedro antes de iniciar o passeio e aconselho a todos a fazer o mesmo. É bem fácil achar alguma loja que faça o câmbio, só sair perguntando.

O passeio começa em frente à própria agência, pela manhã. Uma van veio nos buscar para nos levar até o controle de fronteira do Chile. Depois dos trâmites, todos somos alocados no 4×4. Meu grupo era composto por um uruguaio, um americano, um inglês, duas alemãs e o motorista que era boliviano (inacreditavelmente, nenhum brasileiro!). Uma coisa que eu notei logo de cara é que todos eles estavam viajando por longos períodos. As alemãs tinham vindo da Patagônia e seguiriam até o Equador se não me engano, o inglês estava há dois anos (!) na estrada, o americano, não entendi ao certo, mas parecia estar trabalhando no Chile e o uruguaio rumava para a Colômbia. Eu me senti um tanto quanto “deslocada” por ser a única viajante “normal” desse grupo e bem… Por isso criamos o 15 Dias de Férias, não é mesmo? De qualquer forma, esse pessoal seria minha companhia pelos próximos 3 dias!

Dali, partimos para a migração boliviana que nada mais é que uma casinha no meio do deserto com identificação escrita a mão na parede externa. Aqui uma dica: em nenhum momento me foi solicitado, mas indico que levem a carteirinha internacional de vacina contra febre amarela. Eu não tive problemas porque estávamos em grupo guiado, mas já ouvi relatos de brasileiros serem extorquidos na fronteira terrestre porque não tinham essa carteirinha. Não sei ao certo como está hoje em dia mas eu tomei essa vacina em 2012 gratuitamente sem problema algum.

Fronteira Chile X Bolívia
Migração boliviana

O primeiro dia é bem agitado. A primeira parada é bem atrás do Licancabur (a montanha mais íngreme da cordilheira que se vê da cidade de San Pedro) entre as Lagunas Blanca e Verde, sensacionais as duas. Seguimos para o deserto de “Salvador Dali”, que leva esse nome por lembrar as pinturas do artista. Depois paramos em uma piscina termal onde todo mundo do meu grupo quis entrar. Eu fiquei imaginando que seria complicado guardar a toalha molhada depois na mochila e por isso fiquei de fora. Também não passei vontade porque estava um vento bem gelado, o pessoal sofreu um pouco pra sair de lá e ir até os vestiários. Depois fomos para os Gêiseres Sol de La Mañana. Eles não estavam tão altos, muito provavelmente porque já era de tarde e fediam muito mais do que o Gêiseres Del Tatio no Chile.

Licancabur e a Laguna Verde
A belíssima Laguna Blanca
O meu grupo de tour na piscina termal, da esquerda para direita: o americano, o uruguaio, o inglês e as duas alemãs.
Gêiseres Sol de La Mañana

Então seguimos para o lugar que passaríamos a noite, ficava há 4.600 metros de altitude, segundo meu guia. Todo o meu grupo dividiria um quarto com seis camas. Não havia chuveiro disponível para banho, somente banheiros. Nos serviram um almoço com salsichas, purê de batata e pães. Depois do almoço, o guia nos levou para a Laguna Colorada, definitivamente o lugar mais legal que eu vi nessa viagem (depois do próprio Uyuni, claro). A lagoa era vermelha e tinha muitos flamingos, coisa mais linda. Acho que ficamos ali uns 40 minutos admirando e tirando fotos e só voltamos para a estalagem porque o vento ficou muito forte e o frio foi aumentando. Aliás, aqui faço uma pausa para elogiar o meu guia. Em nenhum momento ele ficou apressando o grupo, nos deixou totalmente a vontade para passarmos o tempo que quiséssemos nos lugares. Aliás, aqui na América do Sul, no geral, os guias são gentis e não ficam nos apressando. O mesmo não posso dizer de passeios que fiz na Califórnia e na Irlanda, mas isso é assunto pra outro dia.

Onde me hospedei na primeira noite
Meu grupo almoçando
Laguna Colorada
Laguna Colorada
Laguna Colorada

Voltamos para o local que iríamos passar a noite relativamente cedo, por volta das 16h eu diria. Isso me incomodou um pouco porque estava no meio do nada, sem internet ou qualquer outro tipo de tecnologia disponível então foi um pouco monótono. Aproveitamos então para conversar sobre as culturas e comportamentos dos nossos países e acabou sendo uma noite bem divertida.

O tempo passou, nos serviram a janta (que eu realmente não me lembro o que foi, mas certamente algo comestível) e por fim fomos dormir. Tinha lido em outros relatos que essa primeira noite do passeio é muito fria por causa da altitude. Eu pessoalmente, não senti frio, primeiro porque estava no verão e, segundo, porque as cobertas eram bem quentinhas. No entanto, foi a primeira noite que senti dificuldade na respiração por causa da altitude, até o peso das cobertas parecia que apertavam o peito e me deixavam mais ofegante.

Enfim, acordamos e o dia estava lindo. Tinham algumas lhamas andando próximo a estalagem, fiquei por ali tirando algumas fotos. Assim que todo mundo tomou café, nosso passeio continua pelo deserto, a primeira parada foi na Árbol de Piedra, uma formação rochosa que parece uma árvore. Ali nos entornos também existem muitas outras rochas de vários formatos e tamanhos, ficamos ali por algum tempo subindo em algumas pedras e tirando fotos.

Árbol de Piedra
Formações rochosas diversas

Depois, fizemos um circuito por algumas lagunas: a Honda, Chearkota, Hedionda e Cañapa. Esse talvez tenha sido o único momento que eu achei mais cansativo do passeio porque, embora todas elas sejam lindas, são muito parecidas, então a paisagem se tornou um pouco repetitiva. Enfim, pelo menos em algumas delas conseguíamos nos aproximar mais dos flamingos do que em outras, rendeu fotos bem legais. Na última das lagunas, foi servido nosso almoço.

Nosso caminho continua passando pela até um mirante do vulcão Ollague que ainda está em atividade, dá pra ver uma fumacinha bem de leve saindo dele. Mais adiante fizemos uma parada bem estratégica para tirar fotos: uma ferrovia bem no meio das montanhas cruzando um salar.

Montanhas coloridas no meio do caminho
Durante o circuito das Lagunas na Bolívia
Flamingos!
Vulcão Ollague
Trilhos no deserto

Seguimos então ao vilarejo de San Juan. Conhecer este vilarejo foi legal para saber como é a vida de quem mora, literalmente, no meio do nada. Aqui também é opcional a visita ao Necrópolis, um antigo cemitério. A entrada é paga a parte mas é bem baratinho. Eu entrei e aproveitei pra conversar bastante com o guia, nascido e criado ali. Uma das coisas mais interessantes que ele me falou é que a cultura deles meio que foi sendo consumida pela cultura espanhola, inclusive o idioma original deles, que seria o quechua, aos poucos está deixando de ser falado sendo substituído totalmente pelo espanhol. Até o nome de cidades foram trocados, inclusive o próprio Salar do Uyuni que seria originalmente Salar de Lipez, que é o nome da província a qual estávamos. O guia disse que teme o dia que a cultura Lipez desapareceria para sempre por causa disso.

Necrópolis

Enfim, após esse momento emotivo, seguimos finalmente para o hotel de sal, que dormiríamos naquela noite. Este hotel já ficava as margens do Salar do Uyuni e toda a estrutura dele era feita de tijolos de sal. Ali conseguimos tomar um banho (um fiozinho de água só, mas era um banho) e também conseguimos recarregar nossas máquinas fotográficas e celulares. Jantamos e nos preparamos já para dormir, uma vez que acordaríamos muito cedo no dia seguinte para ver o nascer do sol no Salar.

Hotel de Sal
O quarto que dividi com as alemãs no Hotel de Sal

Terceiro e último dia, levantamos por volta das 3h30 e rumamos finalmente para o Salar. O ponto alto do passeio estava chegando e eu mal podia esperar. Como ainda estava de madrugada, tudo estava escuro e, quando adentramos pelo Salar no 4×4 parecia que estávamos sobre o nada. Olhando pela janela do carro, dava pra ver os outros veículos também avançado pelo Salar no meio da escuridão. Importante citar que no Salar, obviamente, não existem estradas, os guias dirigem por cima das “trilhas”, ou melhor, das marcas de pneu dos carros que passaram ali antes. Muito me surpreendi eles conseguirem enxergar as marcas naquela escuridão da madrugada.

Chegamos então na Isla Incahuasi ou Ilha do Pescado, que fica praticamente no meio do Salar do Uyuni. Pagamos uma taxa para entrar na ilha e começamos a subir. Cheguei bem a tempo de ver o sol surgir aos poucos no horizonte bem acima do branco sem fim do Salar, foi provavelmente a coisa mais linda que já vi na vida, sem nenhum exagero. Meus olhos lacrimejaram fortemente. Ouvi falar que quem faz esse passeio ao contrário, ou seja, saindo da cidade do Uyuni rumando para San Pedro de Atacama, vê o pôr-do-sol no Salar, o que deve ser tão sensacional quanto. Quem sabe na próxima!

Nascer do sol no Salar do Uyuni
Alguém que virou a cara pois certamente estava chorando
Salar visto da Ilha do Pescado

Depois de apreciar esse espetáculo da natureza, explorei mais um pouco a ilha que possui algumas formações rochosas interessantes e os cactos mais altos que já vi na vida. Depois de um tempo aproveitando o lugar e tirando fotos, o guia nos levou para algum ponto no meio do Uyuni de onde não se via nada a não ser o branco total. Nessa parte do passeio o pessoal aproveita para tirar aquelas fotos com ilusão ótica mas eu, infelizmente, não tive muita criatividade para isso.

Nosso 4X4 no meio do Salar do Uyuni
Branco sem fim
Eu ali no meio

Depois disso, paramos no Museu de Sal. É legal apenas pelas muitas bandeiras de diversos países fincadas na frente, lugar bom para tirar fotos. Também paramos nas Minas de Sal onde é feita a preparação do sal para consumo humano e por fim, no Cemitério de Trens, outro lugar fantástico pra tirar ótimas fotos e fingir uma perseguição digna de espiões em cima dos trens.

Bandeiras!
Minas de Sal
“Asi es la vida” no Cemitério de Trens
Perseguição fracassada
Cemitério de Trens

O passeio se encerrou na cidade do Uyuni mais ou menos na hora do almoço. A agência (que também tinha um escritório na cidade) permitiu que ficássemos ali até o horário de fechamento. Eu já tinha comprado passagem de ônibus para La Paz em San Pedro e ele partiria somente as 20h30. Fiquei circulando na cidade com as duas alemãs em busca de comida e internet. Visitamos o mercado local que na verdade é uma feira como conhecemos aqui no Brasil e já deu pra perceber como seriam as coisas em La Paz. Nesse meio tempo consegui discutir com uns dois bolivianos. Nada muito grave, mas senti que ali o pessoal que vive de turismo, não deixa passar nada, nem 10 minutos de wi-fi. Tudo é cobrado.

Por fim, deu nosso horário. Não existe uma rodoviária no Uyuni, é mais uma rua em que todas as empresas ficam e os ônibus param ali na frente delas mesmo. A viagem demoraria 11h30 e já tinha lido em vários lugares que a estrada é péssima e o ônibus chacoalha o tempo todo. Para minha sorte, estava tão cansada que dormi relativamente fácil.

Acordei numa das paradas, por volta das 3h numa espécie de bar. Uma das alemãs também acordou e queríamos usar o banheiro. Ali vivenciei o momento mais tragicamente engraçado da viagem. Perguntamos para um senhor onde ficava o banheiro. Ele não respondeu, simplesmente estendeu o braço para frente e apontou para a esquina, numa rua escura. Ficamos pensando o que ele quis dizer com isso, fomos até a tal rua escura e descobrimos. Não tinha banheiro, se precisasse fazer, seria ali na rua escura mesmo. Eu tive um intenso ataque de riso mas a alemã que estava comigo não achou nem um pouco engraçado pois estava mais apertada que eu. Bem, ela conseguiu utilizar aquele banheiro a céu aberto, eu já não tive tanto sucesso. Dentro do ônibus, no entanto, descobri que havia um banheiro ali só que tinha um problema… Bem em frente da “privada” havia uma enorme janela sem cortinas. Como não tinha muita escolha, peguei o máximo de paninhos umedecidos que pude e fui com fé. Como era de madrugada e tudo estava escuro na estrada, jamais saberei se alguém me viu naquele banheiro indiscreto.

Consegui dormir o resto da viagem tranquilamente e só abri os olhos quando já estávamos em La Paz. O ônibus nos deixou na rodoviária e eu me separei das duas alemãs.

2 thoughts on “O passeio de 3 dias ao Salar do Uyuni por Rafaela Hernandes”

  1. Rafa, quero muito conhecer esse lugar! Vou me basear nessas dicas. Pode demorar, mas um dia eu vou!! rsrsrs Bjão e parabéns pelo blog!

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